quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Saturado.

Fico pensando... Com o tempo os sorrisos ficam cada vez mais escassos e raros, as brincadeiras pouco a pouco vão perdendo a graça, nos cansamos à toa da vida, e ela, acaba enjoando de nós também.


A felicidade vai se tornando mais difícil, esquecemos o sabor de uma boa risada, nos temperamos com lágrimas e algruras e lá vamos nós espalhar toda essa corrupção de alma aos quatro cantos do mundo. Nada é tão contagioso! Velhos, mal humorados, cheios de chatisse e preguiça, andando pra lá e para cá, preocupados demais com a ilusão envenenada.

Quanto mais nos misturamos a esse mundo, mais nos contaminamos, mais coisas precisamos para nos trazer alegria.

A vida não gosta disso não! Por isso vai embora...


Quanto mais a gente cresce, mais vida perdemos.








Acredite, todos nós possivelmente, já tivemos o riso fácil assim.

Soul

Passando por aquelas pessoas de rostos cotidianos, questionava-se como suas feridas não podiam ser vistas por quem passava por ali. E descobriu, naquele instante, que existiam coisas piores do que estar morto.


















"É tempo de me fazer, eu sei"


- Caio F. Abreu

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Chá de Camomila

Folhas amareladas ao chão e o sol arfava o mato seco com delicadeza. As árvores embaraçadas formavam um conjunto perfeito de tons verdes queimados, enquanto a estrada se esticava das vistas, suando no horizonte, tornando parte de uma bela paisagem. "Que coisa mais linda." Pensei. Como se fosse a primeira manhã de outono que vira.
O pasto baixo, ostentava as folhas caídas formando um tapete em alto relevo, nas fazendas enfeitadas por vacas gordas. O céu estava num tom singelo de azul e as nuvens se esticavam preguiçosas.
Imaginei-me acompanhada dum cavalo por aquelas matas; minha sede de respirar liberdade era sufocante.
Fechei os olhos, e pude visitar um casebre de madeira antiga na montanha coroada pela neblina. O chão rangia ao sentir a ousadia de meus passos ao entrar na pequena casa. A porta entreaberta num convite breve, uma cadeira de balanço abraçada por uma manta rosada logo se apresentaram. Uma mesinha de madeira com detalhes talha
dos muito precisos ao lado, enfeitada por algumas flores do campo dentro de um bule de café cor verde e um livro ao lado. Logo à frente uma lareira pronta para ser acesa, porta-retratos espalhados num aparador de madeira e meu coração implorando para desfrutar de tudo aquilo.
Alguns galhos foram suficientes para que o fogo me arfasse. Deleitei-me na cadeira, cobrindo-me com a manta para espantar o frio. Não pude conter o sorriso doce que pedia para ser aberto. A sensação de estar em companhia de liberdade arrancava-me suspiros de alegria que eu desconhecia até então.
Curiosa, apanhei o livro em minha frente e meus dedos ousados tocaram cuidadosamente a capa dura de cor vinho com desenhos dourados a enfeitá-lo. As letras miúdas, estrategicamente bem posicionadas, encantavam os meus olhos que logo se renderam e fixaram-se naquelas palavras contadoras de história. Estava conhecendo alguém diferente naquele momento.
Logo percebi que tudo falava de amor. Um amor que lembrava um Deus; ou um Deus que lembrava amor... Meus olhos encheram-se de beleza ao encontrar, em poucas palavras, sentido para os devaneios mais tolos de minha natureza. Estava ali, se achegando a mim em suas doçuras, aquietando meu coração; que estava transbordando em paz naquele momento. Rendida ao encanto daquele homem, descrito de forma tão serena, que havia dado sua vida por mim.
Fechei os olhos e o aroma das flores invadiu a sala sem pestanejar, co
mpletamente à vontade; e me convidou a explorar o canteiro natural lá fora. Caminhei descalça pela terra, apanhei uma margarida cor de ouro, ergui meus braços o mais alto que pude e a ofereci àquele Deus; mas, logo recolhi, sentindo-me ridícula dando para Ele algo que já lhe pertencia. Um abraço da brisa leve e pude ouvir um "Presentei-me com o teu coração.'' O riso foi inevitável.




"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra."
Caio F. Abreu