Distinto de tudo aquilo a que se sabe ou conhece, viver é realmente a mais tênue e sucinta das criações divinas. Nada retórico ou que visa o preenchimento parcial do indivíduo – se assim o fizer, claro. Porém, algo ardiloso e palpável.
Ontem, enquanto olhava o céu. Notei que existia muito menos branco puro nas nuvens do que eu acreditava ter. E que a cegueira que me tomara para os tons infindáveis de que me havia passado despercebido, não era nada além de uma grande indisposição para fechar os olhos e enxergar o que estava e sempre esteve à minha frente.
Meus olhos estão fartos do prestígio da beleza literária. A vida é linda, crua assim. Simples. Fraturada por minha culpa, recheada de ideologias frustradas nas quais eu dou risada e analiso de forma ferrenha; cada detalhe: um pedaço meu, cada pedaço meu: um sonho. E eu não me importo com todas as falcatruas que me rondam a cabeça. Eu desejo essa paixão de menino que me toma o peito feito luz, que me habita o ser e me deixa tonta! E se eu puder misturar as cores e num súbito rechear com todos os sons, eu faço sem ter prática alguma em sinestesia, manipulo somente por diversão.