Era dia com gosto de fruta madura, colhida do pé. Suficiente para um sorriso tímido ser arrancado sem motivo algum.
Um vestido fulvo surrado; desfiado na barra, combinados com os pés descalços e os cabelos amarrados de qualquer jeito; fazia conjunto com o verde predominante daquela terra.
Árvores robustas tentavam tocar o céu, pássaros cortavam o azul vivo com poucas nuvens penduradas, o vento assobiava em compasso simples e meu coração acelerava com toda aquela arte.
Um Homem de barba cerrada, de macacão jeans - sujo de terra nos joelhos - camiseta alvina, descansava debaixo de uma árvore, acompanhado de um violão cor de amêndoa doce. Um sorriso brilhante familiar e logo, uma melodia simples se expandiu pelo ambiente suavemente, derramando sede, entoando cânticos maravilhosos que só quem se entrega é que entende.
Deitou na mata virgem vislumbrando as maravilhas daquele lugar por um momento e sondava-me parecendo não se importar com a minha irreverência ao explorar aquela vereda curiosa. As flores tinham cores estonteantes; seus detalhes eram ternos e eu me alegrava ao apreciar suas essências, dando início à uma sequência utópica, que me acontecia com fervor.
O senhor se aproximou gentilmente, como se estivesse sempre pronto para plantar sonhos em meu peito. Ele dançava com a brisa marota de forma sutil; majestososamente governava o ritmo do vento.
Convidou-me a sentar numa sombra, me presenteando com alegria completa. Eu até podia ver a felicidade se espalhando com o vento, aquecida pelo sol, empurrando as obviedades para longe e apagando cada interrogação. Suas ações simplesmente, me adoçavam o ser.
E então, ele cantou á plenos pulmões - numa língua diferente, nunca antes ouvido por mim, mas fazia completo sentido para a minha alma. O timbre perfeito, acompanhado de um dedilhado puro, soava capaz de curar tudo e qualquer coisa. Sua voz era um remédio para qualquer coração e vida, acredito eu. E eu nem sabia de onde ele vinha. Tomei a liberdade de perguntar seu nome, e com um olhar brilhante, ele me respondeu cheio de ternura:
- Meu nome é Deus, querida. Eu sou Teu Pai.
O despertador ressoou frenético. Me tirando daquele mundo paralelo, que eu acabara de conhecer. E descobri-me no meu cantinho do quarto escuro, sujo e vazio. A receita variável de vida perfeita numa folha de papel preenchida de palavras bobas no lixo , dava espaço a uma paixão singela que cintilava o peito. Sorri então.
Mas os meus olhos te contemplam, ó DEUS o Senhor; em ti confio.
Sl 141:8